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27 de maio de 2014

As loucuras do André Branco

Tinha o regional de Alcobaça acabado à instantes, quando apareceu o André a acelerar loucamente numa das scooters artisticamente forradas pelo Deodoro com as preciosas chitas de Alcobaça. 
Caiu mal no grupo a imprudência do André.
Ele ainda tentou a esfarrapada desculpa de estar a testar a resistência das chitas à deslocação do ar, mas ninguém lhe ligou, pois todos sabiam que a razão era outra, e não justificava a pressa - o petisco era só em Turquel, e as brasas ainda nem sequer estavam acesas!

11 de abril de 2014

A colina da vida


Depois de mais de um ano de costas voltadas para as escritas da dança (outras prioridades entretanto a terminar) é hora de voltar. Devagarinho, pois os tempos não estão para Jives.
 
A semana passada tive necessidade de conceber um panfleto para promoção da dança nas escolas, e, puxando pelas meninges, apercebi-me dum facto interessante – a dança é geralmente aceite e sobejamente utilizada no desenvolvimento infantil, e na travagem possível do envelhecimento, ou seja, enriquece e protege os primeiros e os últimos passos na vida da maioria das pessoas. No entanto, durante a longa fase da plenitude, jovem ou madura, a dança é negligenciada, e substituída por outras preocupações e recursos.

Porquê?

A vida é uma colina, onde se sobe com entusiasmo, ansiando chegar ao topo, para aí constatar que vem logo a dedadência e começar o esboço de travagem que se acentua ao longo da descida.

Verifica-se que, nas fases em que as pessoas podem pensar exclusivamente em si, na infância e velhice, a dança marca pontos. Será a dança uma atividade egoísta, forçosamente abandonada quando se trata de aderir à sociedade do trabalho, realização pessoal e organização familiar?

Não me parece! Julgo que tudo terá a ver com o binómio exigência/disponibilidade.

A dança, na sua adaptabilidade, permite todas as concessões quando ainda não se sabe ou já não se consegue, mas na fase em que não há desculpas, atingir um nível satisfatório exige uma aprendizagem descartável na cultura de facilitismo que informa a sociedade atual, e treino incómodo para o comodismo reinante.
 
Por outro lado, o contexto social não favorece a dança. Os espaços adequados são poucos, muitas vezes assoberbados por outras atividades desportivas, e o convívio através da dança migrou para outras práticas, do recorrente martelar nos joelhos ombro com ombro das discotecas, ao marcar passo com técnica e imaginação quase militares dos arraiais.

E, no entanto, não seria muito mais saudável tirar-se partido das evidentes e incomensuráveis virtudes da dança durante todo o percurso ao longo da colina da vida?

Mas, meus amigos… como é que os convencemos?  

 

19 de julho de 2010

As lições de Espinho

Levei, no passado sábado, duas lições. A primeira, e a mais esperada, é a de que não há milagres, e um sexagenário metido com “jovens trintões” e quarentões numa actividade exigente para a qual não tem grande vocação, se arrisca ao desastre. A segunda, é que há sempre algo de novo a aprender, e mesmo da pior catástrofe se podem construir ideias positivas.

O Espinho Open foi uma competição de enorme envergadura, onde tive o privilégio de participar.
Dois universos bem distintos (os IDSF e… os outros) cruzaram-se e coexistiram durante 14 horas, numa maratona em que os maiores galardões deveriam ir para os organizadores e estrutura técnica, pela resistência.
Foi bonito de ver, e de viver.
Não foi tão bonito perceber que o evento não escapou às tricas de capelinha, fruto da menoridade mental de alguns dos poucos, reais ou pretensos, “senhores da dança” em Portugal.
E, de repente, a inesperada lição.
Estava de regresso à bancada, depois de, durante duas horas e meia, ter desopilado numa caminhada através da feia Espinho, quando, disposto a apreciar os mestres, deparei, no corredor à minha frente, com uma cena curiosa:
Um dançarino a aguardar a meia-final IDSF de Clássicas, enquanto na pista se dançava a rumba, começou a fazer leves movimentos numa clara intenção de relaxamento e descompressão. O seu par colou-se, acompanhou-lhe os movimentos, e produziu o mais espantoso momento da noite. Aquilo não era nada… Não era rumba, nem valsa inglesa, não era slowfox nem sequer “slowwolf”.
Não havia planos nem regras, não havia técnica nem expressão, não havia postura nem atitude – os corpos iam na doçura da música, ele movendo-se ao sabor do improviso, ela replicando o movimento, algo entre sombra e reflexo, apenas com a suave movimentação da cabeça dando elegância e sentido ao nada que estavam a fazer.
Por inspiração, hábito, ou apenas porque sim, os movimentos dele eram aqueles que a cabeça dela sugeria, numa identificação, numa simbiose, apenas sintetizáveis na palavra prazer.
O deleite durou menos de um assombroso minuto, e quando ganhei coragem para chamar a atenção da Fernanda esfumou-se com a suavidade com que surgiu, garantindo-me o exclusivo da sua fruição.
Quando, mais tarde, a outra esperada lição me levou a equacionar se não teria chegado a inevitável hora do “era bom mas acabou-se”, a segunda varreu de imediato qualquer dúvida – está na hora de ir ao reencontro das origens.
Entrei na dança pelo prazer da dança, e pela oportunidade de partilhar com a Fernanda uma actividade de que ela gosta, no mínimo, o mesmo que eu.
A passagem à competição veio depois e naturalmente, por influências do grupo, e foi extremamente importante, pelo nível de exigência que a nós próprios tivemos que fazer.
Pressionados pelos resultados esquecemos o ponto de partida, e concentrámos no “trabalho” todos os esforços. Tinha mesmo que ser, pois só o muito trabalho permite, na segunda metade da vida, chegar perto daquilo que, na idade da aprendizagem se consegue natural e espontaneamente.
A verdade, no entanto, é que ao ver aquele par holandês a viver o momento, me questionei a mim próprio onde iam já os tempos em que era aquilo, exactamente aquilo, que eu buscava na dança.
Não. Ainda não está na hora.
Antes de parar, ainda falta regressar às origens, recuperar o prazer da dança sem exigências, mas tentá-lo na situação aparentemente paradoxal de o fazer sem prescindir do nível de melhoria que sustente a continuidade neste grupo a que não pertenço mas onde me sinto bem.
Aí está um desafio novo para os próximos treinos. Obrigado, Hem Spilker & Darja Bokhove, o vosso 17º lugar foi a mais gritante das injustiças – eu dei-vos o primeiro.
Só que para vosso ( e meu) azar… eu não conto.

7 de abril de 2010

A Cicatrização Social

A informação que coloquei no fórum Dança Desportiva sobre a iniciativa “Dança Solidária” mereceu um comentário de André Lopes que me suscitou alguma reflexão.

Trata-se de uma opinião aceitável, mas que ilustra na perfeição alguns mecanismos da mente humana, que todos usamos, de forma intuitiva e sem ter em conta o que revelam.

Diz o nosso amigo que a nossa iniciativa pode ser prejudicada por já muitas terem surgido com as mesmas intenções. Tem razão.

Todos nós usamos um mecanismo de cicatrização social idêntico ao da cicatrização física.

Em caso de lesão física acorrem imediatamente ao local afectado todos os meios de defesa do organismo, automaticamente mobilizados, e com uma intensidade que pode gerar aumento de temperatura – febre. O processo de cicatrização inicia-se de imediato, primeiro estancando hemorragias, depois cobrindo a parte afectada, e finalmente substituindo tecidos danificados.

Socialmente agimos da mesma forma: perante um grave acidente social, toda a gente, por impulso se sente motivada a “fazer qualquer coisa”, em socorro do tecido social lesionado. Pode instalar-se uma febre solidária, capaz de levar no imediato aos maiores sacrifícios e níveis de generosidade.

Passado pouco tempo, apenas os meios organizados de defesa ficam a cumprir a sua missão, a temperatura social arrefece, e o processo mental “Já demos”, mesmo por parte de quem nada fez ou deu, e se limitou a uma maior ou menor ligação emocional com os acontecimentos, acelera a cicatrização das emoções e o virar de atenções e preocupações para outros assuntos.

Todos temos a consciência (se e quando nos dispusermos a pensar nisso), que o muito que se tenha feito nada resolve e apenas mitiga um pouco das carências geradas. No entanto, o processo de cicatrização social já nos libertou dessa “lesão”, e a simples referência a ela começa a tornar-se incómoda.

É um processo que pode parecer duro e egoísta, mas, tal como a cicatrização física é vital para a saúde, a cicatrização social acaba por ser importante para a regeneração da normalidade social, e a preservação da saúde colectiva indispensável para poder reagir a qualquer nova agressão que aconteça – e acontece com frequência.

Tem, assim, um mérito acrescido uma acção generosa “fora de prazo”, ou seja, que não se limite a satisfazer impulsos e resolver problemas que estão na moda, mas que se preocupa com questões graves que apesar de terem passado de moda, inclusivamente na pressão mediática dos telejornais, estão muito longe de solucionadas. Por isso, embora entendendo as reservas de André Lopes não desistimos.

Já não concordo com a sugestão de mudarmos de objectivo, passando a tentar angariar fundos para a promoção da dança. Nem vou ao ponto de comparar a dimensão humana dos dois tipos de objectivos, apenas a constatação da falta de sentido da sugestão. A dança é uma arte que proporciona espectáculo, e, portanto, se promove a si própria. A melhor, ou talvez única medida de promoção da dança é… dançar.

O nosso amigo André não se apercebeu do essencial: esta iniciativa em prol de pessoas em dramáticas dificuldades é, no fundo, e na sua essência, uma iniciativa de promoção da dança.

Haverá maior forma de promover uma modalidade frequentemente criticada por ser vivida por gente tida por vaidosa e egocêntrica, do que mostrar que vemos mais que o nosso umbigo, e que somos capazes de nos unir e sacrificar por uma causa alheia?

Haverá melhor promoção da dança do que dançar, e bem, não pelas nossas classificações, mas porque podemos ser úteis a quem precisa?

Dia 9 de Maio vamos dançar. Com duplo prazer.