Dum antigo livro de culinária que encontrei num alfarrabista da rua da Portas de Santo Antão retirei uma curiosa receita:
Receita para um dançarino de sucesso
Escolhe-se um jovem tenro e bem proporcionado, sem manchas nem sinais de deterioração.
Polvilha-se com pó de narciso, de ambos os lados, até ficar bem coberto todo em volta.
Vai a cozinhar em molho de treino, lenta e suavemente até ficar bem apurado. Se for preciso, ir adicionando mais molho.
Nunca acompanhar com arroz ou batata frita – seleccionar uma dançarina de dimensões e formas compatíveis, preparada segundo a mesma receita, e dispor harmoniosamente o conjunto no meio do prato.
Enfeitar com confit de lantejoula, e servir rodeado de muitas palmas.
Notas – Diversos cozinheiros usam receitas um pouco diferentes, mas os resultados não são tão bons.
Alguns não seleccionam o dançarino, cozinhando a eito. O resultado é um prato do tipo farta-brutos, sem apresentação nem harmonia. Há, até, quem tente cozinhar dançarinos muito maduros; é tempo perdido – aguentam os primeiros calores, mas a maioria, mal atinge o chamado ponto Open, desfaz-se rapidamente.
Outros cortam no pó de narciso. Não é um desastre, mas nunca se obtém a textura delicada e fofa que só o narciso assegura.
Há ainda quem poupe no molho de treino – resulta num prato deslavado, sensaborão, quase cozinha de tropa.
O único ingrediente eventualmente dispensável é o confit de lantejoula, pelo que é geralmente usado apenas na alta cozinha.
Não negligenciar o acompanhamento de palmas – um par de dançarinos, sozinho no meio do prato, é uma imagem desoladora, que não prestigia nem gratifica o trabalho do cozinheiro.
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